



Chovia lá fora, apesar do calor. Da varanda dava para ver o mar, bonito, mesmo com o dia cinza. Alheio a tudo isso, ele desenhava distraído, sem camisa, com os pés descalços e uma displicente calça preta. Enquanto isso, ela, de saia curta rodada, pés no chão e uma gérbera vermelho-sangue no cabelo, se revezava entre olhava para o mar e olhar para ele.
Ficou pensando que se tinha uma coisa que não acontecia com ela, ainda bem, era a vida passar em branco. Não sabia o que mais lhe chamava atenção, se o mar lá fora, a ruga que se formava na testa dele enquanto desenhava ou o fato de estar ali de pé, com a gérbera vermelho sangue no cabelo.
Ela se lembrou de como ele era deliciosamente engraçado em público e escandalosamente sério quando não se sentia observado. Fez um agradecimento mental por estar com alguém que suscitava esse tipo de pensamentos.
Ele largou o desenho como se tivesse sido atingido pelos pensamentos que passavam pela cabeça dela. Levantou-se e sem dizer nenhuma palavra, segurou-a pela mão. Não caminharam até a cama (ele era lindamente imprevisível), mas até a varanda. Sentaram-se no chão, ela entre as pernas dele, os dois de frente para o mar. Ele abraçou-a com força, como se fossem um do outro. Não eram. Possivelmente jamais serão, e isso não parecia incomodar nenhum dos dois.
Subitamente ele pareceu notar a gérbera vermelho-sangue. Tirou a flor do cabelo dela e sem nenhuma palavra, entregou-lhe. Talvez fosse essa a função dele, devolver-lhe algo que sempre foi dela: uma vontade de brilhar de novo, uma inquietação que, paradoxalmente, lhe trazia paz. Ela entendeu o que estava fazendo ali, então.
Colocou a flor em cima da cadeira onde estavam suas coisas: uma flor daquela cor era obviamente reservada para outras ocasiões, outros sentimentos. Mas agora não era hora de pensar nisso. Um dia encontraria de novo a ocasião correta para usar uma gérbera vermelho-sangue no cabelo. Era sábado, chovia lá fora e os desenhos largados ao lado da cama pareciam convidá-los. Ele segurou-a pela cintura e ela riu despreocupada. Ele lhe falou uma bobagem ao ouvido e ela pensou que... mentira. Ela não pensou em mais nada sério. Não neste dia. Era um dia de girassol amarelo, apesar da chuva lá fora.


Foi o engraçaod Duílio Ferronato, que tem um link aí do lado e publica umas entrevistas interessantíssimas no seu blog, que começou com essa história de publicar fragmentos de histórias dos outros no blog, mas eu confesso que sempre escuto um pouco quando duas pessoas começam a conversar perto de mim.
Aí esses dias eu ouvi algumas pérolas que valiam a pena serem compartilhadas. Voilà, senhores leitores.
“A informática evolui muito... Antes todo mundo só queria o Windows, e agora quem quer saber dele? Todo mundo só quer o sistema XP, que é o mais moderno!”
Do motorista do meu ônibus, reinventado a informática de maneira meio obsoleta
“Porque tem gente que tem depressão e gente que tem síndrome do pânico né? A diferença é que síndrome do pânico é assim uma doença, precisa de remédio e depressão não pode ser considerada uma doença...”
De uma jornalista, reinventando a medicina, especialmente a psiquiatria, para um outro colega.
“Eu acho que a violência é um problema assim eminentemente educacional-político-sistêmico, tem que ser tratado com muito cuidado, para evitar que fique tudo mais violento...”
No ônibus mais uma vez, soluções para um mundo melhor
PS: A lista de homens para a sessão de tombamentos está bombando. Meninas solteiras, alegrem-se. A vida quase sempre é bem boa.
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