Sorrisos e sorvetes
Se tinha uma coisa que era difícil pra ela era lidar com decepção. Não era mimada, isso não. Sabia por experiência própria que o mundo não era exatamente do jeito que ela queria que fosse. Ainda assim ficava arrasada – mais que o normal – quando alguma coisa não saia como seria planejado, o que quer que seja.
Em um sábado de outono qualquer, ela resolveu que tinha que caprichar na produção. Escolheu uma lingerie para arrasar, foi ao cabeleireiro e saiu de lá direto para um demoradíssimo banho, com direito a todos os óleos, sais e cremes possíveis. Vestiu-se com cuidado, tirou do armário a maquiagem francesa e caríssima, que ela só usava em ocasiões especiais, separou uma
Quis a vida – e o trabalho, o tempo e outros fatores – que o objeto de tanto apuro não conseguisse chegar lá no horário marcado – e nem nas próximas 5 horas, diga-se de passagem.
Mas chegou. Cansado, irritado, aborrecido com um dia de trabalho que não havia sido fácil e tendo que partir em breve para trabalhar mais. Ela ainda estava bonita, com a maquiagem já um tanto passada, com a roupa já outro tanto amassada, e ficou super decepcionada.
Mas, ainda não sabe porquê, não teve raiva. Estava atrasado, ela estava chateada e tivesse ele agido de outra maneira, talvez tivesse sido mais difícil considerar. Mas olhou pra ele, visivelmente cansado, às 3h da manhã e parou para pensar que ele havia dirigido mais de 20km para dar um beijo e mais outros 5km pra comprar um sorvete para ver se ela não ficava tão triste. Ficou enternecida com as tentativas dele de fazer com que a noite não fosse ruim, e absurdamente surpresa com uma tentativa de ajuda que ela não imaginava que ele fosse fazer.
Sorriu da melhor maneira possível, abraçou e beijou tanto quanto pode, demonstrou todo o carinho que ele merecia – muito mais depois deste gesto fofo. Entendeu de repente que gostar pode até ter a ver com produção caprichada e surpresas mil. Mas tem a ver também com entender os dias ruins, reconhecer as lindas tentativas de não chatear, deixar para lá a cara amarrada e compreender que dar um beijo é tão melhor que provocar uma briga.
Se ele é o cara certo para ela? Não sabe ainda, há tantas coisas a descobrir, tanto a viver, a saber, é tudo muito novo. Mas teve um gesto lindo – e mais importante, ensinou-a, sem nem perceber, a ser um pouquinho melhor. E só por isso já tem valido a pena.
“Se você quando jovem teve a sorte de viver em Paris, então a lembrança o acompanhará pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa ambulante.” (Ernest Hemingway)
E tenho dito. Saudade, saudade, saudade. Não só de Paris, mas da festa ambulante que eu costumo carregar no coração.